domingo, 11 de maio de 2014

Opinião «A Chama ao vento» - Carla M. Soares

Mais uma vez, Carla Soares não desiludiu, pelo contrário, surpreendeu. Li a sua primeira obra, «Alma Rebelde», e não me tendo arrebatado, gostei imenso e estava ansiosa para ler o seu novo romance, quando lhe vi o brilhozinho nas redes sociais. Apressei-me a comprá-lo e ainda tenho um sorriso nos lábios ao recordar a obra, que terminei há pouco.
 
 


Uma coisa que adoro na autora é a sua capacidade de se reinventar, de assumir tantas cores quanto um camaleão, mudando de pele e de personalidade como quem muda de roupa. Escreve géneros literários distintos e é admirável que o faça com mestria, em cada trabalho.

Este é um romance que se divide em duas partes: presente e passado, os estilos contemporâneo e histórico a envolverem-se numa dança brilhante, que me deixou com os olhos pregados nas páginas e as ideias bem longe da realidade e presas à história. Primeiro, aquele início: Um corpo é atirado ao mar...que corpo? Prendeu-me e quando dei por mim, com as algemas bem presas aos pulsos, já não conseguia libertar-me. Tive de esperar muito tempo para perceber a que se referia a autora com este princípio de história, mas valeu bem a pena a espera. Foi um golpe de mestre.

Francisco, o personagem principal, cativou-me desde o princípio, com aquela personalidade peculiar, fruto de muita coisa mal resolvida que o leitor vai descobrindo ao longo da leitura. Conheço uma pessoa muito parecida e talvez por isso me tenha identificado tanto com ele. Também sofri muito ao colocar-me na sua pele de menino abandonado. Adorei-o, adorei a Teresa e a relação que mantinham, e quando o passado se impôs entre os dois, senti a sua ausência na história. Não foi uma coisa negativa. Era uma saudade boa, que ia sendo colmatada com a verdade de Francisco, a vida da avó, Carmo, e Dekel, que me destroçaram o coração, e o pobre João, para quem desejei sempre mais do que aquilo que teve.

Todo o livro foi chama, não a chama extinguida do olhar de Carmo, mas a chama sempre acesa daquilo que foi um dia. O vazio e a solidão das personagens eram sempre colmatados com amor e amizade, momentos ousados que a autora soube desenhar ao longo das páginas.

Depois, a vertente histórica: Todo o passado foi bem retractado, com elementos históricos bem definidos no seio da segunda guerra mundial: a excitação das gentes de Lisboa, o medo dos que sabiam, a inocência dos que ainda viviam nos tempos de ouro, vendo tudo, mas fingindo não ver. E no meio de tudo isto, um amor que me partiu o coração e que explicou, de muitas formas, a maneira como uma chama pode ser apagada com a força do vento.

Acho que as analepses que caracterizaram toda a história foram muito bem metidas, cativando sempre o leitor a ler mais e mais, dando-lhe apenas pedaços de verdade, que só servem para o tornar impaciente.

Gostava de ter visto mais de Francisco e Teresa. Apesar dos poucos momentos que passaram juntos ao longo da história, prenderam-me com uma química muito especial e eu adoraria que a autora pegasse na continuação desta história e que os desenvolvesse, mostrando, ao leitor, a forma como Francisco acabou por lidar com as barreiras que destruiu em torno de si próprio. Estas acabaram por cair-lhe aos pés e Teresa entrou no seu mundo com a sua permissão. Mas será assim tão fácil? Francisco ergueu à sua volta muros altos e inquebráveis e eu gostaria de saber como lidaram ambos com este novo Francisco.

Por fim, a escrita: Não é novidade. A escrita da autora é sublime, bonita, fluída, com recurso a metáforas fantásticas, que eu adorei. Era um livro que merecia ter um destaque maior em papel. O leitor que tiver acesso a ele, quererá tê-lo na estante e espero que a editora possa apostar nisso.

Recomendo e quero mais livros da autora! :D
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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Angústia


 
Cresce em mim uma angústia desesperante que os dias de chuva não levaram com a sua tristeza dos dias de Abril.
 


Esta primavera com sabor a Verão tem-me sabido bem. Tem-me trazido uma falsa felicidade. Não será sempre falsa? Ou falsas, as ilusões. Tudo muda num segundo, ou pode mudar.
 
Cresce em mim a angústia de perder. Perder aquilo que tenho, aqueles que amo, o mundo como o conheci. Tenho pensado para mim que a informação está a dar-me cabo do juízo. A informação da Internet, dos jornais, das televisões, das redes sociais. Informação, informação. Drama e mais drama. E depois, a ironia: eu própria fiz essa informação, um dia.
 
É possível viver assim? É possível viver sempre na ânsia de perder, porque conhecemos o vazio, a tristeza e a dor? É a dor dos outros, sempre a dor de desconhecidos, quando vemos, ouvimos e lemos a informação de fora. Mas quando nos toca? O mundo desaba, deixamos de ver, de ouvir e de ler. As pernas tremem, o coração acelera e deixamos um pequeno animal nervoso, cessando o seu ladrar impertinente para nos olhar, curioso, com os olhos tristes e brilhantes.
Está tudo bem, digo-lhe. Tudo bem. 
Outra mentira, outra ilusão. Pessoalmente, não preciso que me falem de dramas para ser dramática. A tragédia corre-me nas veias e preciso frequentemente de encontrar o meu refúgio. Hoje encontrei-o. Ainda não foi hoje. E repito:
Está tudo bem.
Desta vez, é verdade. Ainda nada mudou. Ainda não há um problema definitivo. Ainda existe uma solução. Vou acreditar nela, durante o dia, mas sei que, em algum momento dos meus sonhos, os pesadelos vão regressar e recordar-me de que não posso distrair-me.
Tens de continuar a preocupar-te, diz-me a voz dos sonhos. Tens de te preocupar.
Não me parece que faça outra coisa. Faço sempre isso, quando a minha mãe me envia uma mensagem em horas pouco habituais, ou me telefona com voz de constipada. O coração salta-me no peito.
Estou constipada, filha, quero que me diga. Só quero que me diga isso. E por vezes, diz. Por favor, continua a dizê-lo. Por favor, não me tires o chão. É só uma constipação. Vai passar.
Onde fica a vida? Onde fica o sonho? Onde fica o futuro? Conseguirá alguém continuar a viver sabendo o que de pior acontece aos outros? E no meio de tudo isto, tenho de continuar a sorrir, porque amo a vida. Amo os meus amigos, os meus familiares, o meu trabalho e os meus meninos da ginástica, que me dão tantos sorrisos. Amo as palavras, amo os livros, amo aqueles que conheci através deles. No meio disto tudo, tenho de acabar por aqui. Tenho de voltar a sorrir, voltar a escrever, voltar a esperar. Porque sem esperança, não acredito mesmo que possa viver.
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sábado, 5 de abril de 2014

Opinião - «Sozinhos na ilha» - Tracey Graves

Já li este livro há algum tempo. Terminei-o precisamente na noite de passagem de ano e acabei por não ter tempo de escrever uma opinião sobre ele, durante a época de festas. Depois surgiram outras leituras e esta crítica acabou por passar, mas o livro não ficou esquecido e irei recordar sempre a história com carinho.
 

Tenho um aviso a fazer: história altamente viciante! Li-o em e-book (foi um tremendo presente de Natal) e tenho muita pena de não o ter na minha estante, para que eu possa sorrir-lhe sempre e recordar-me da Anna e do T.J. por entre a areia, as águas azuis e os golfinhos simpáticos da ilha que os acolheu, depois da queda do avião onde seguiam, e que acabou por se tornar na sua casa durante anos.

Foi uma obra que me arrebatou completamente. Adorei cada pormenor de sobrevivência, cada gesto de amizade e de amor entre a Anna e o T.J., uma relação maravilhosa que vai crescendo a um ritmo alucinante e viciante e que me manteve presa às páginas do livro até à última letra. Na altura, andava desiludida com as minhas últimas leituras e estava pronta a pôr as culpas na minha Kobo, por não estar habituada a ler em e-reader e pensar que as obras não teriam em meios digitais o mesmo gosto do folhear das páginas por entre os dedos. Como estava enganada! Um bom livro lê-se em qualquer sítio, num e-reader, numa folha de papel esborratada e até às escuras.

Foi a minha estreia com a autora e surpreendeu-me pela positiva. T.J. é um personagem com P maiúsculo, pela sua tenra idade e, ao mesmo tempo, maturidade em relação aos jovens da sua idade, talvez pelo problema de cancro que havia ultrapassado e que o moldara de alguma forma. O seu altruísmo, a sua generosidade e a forma como amou a Anna, não um amor repentino, mas bem delineado, bem pensado e escrito, com as palavras, a química e os gestos na altura certa, conquistaram-me. Não me parece possível que um leitor não acredite no amor entre estes dois. A Anna, por seu lado, uma mulher adulta e madura, incapaz de sucumbir aos ciúmes ou de impedir o T.J. de viver a sua vida, mesmo sabendo que podia perdê-lo. Ela libertou-o para que ele voasse de volta para si, se o pretendesse, e penso que essa é a mais bonita forma de amar.

O que dizer daquele primeiro beijo, no abrigo? O que dizer da forma como a Ana tratou o T.J., quando ele mais precisava, e de como ele próprio o fez com ela, quando Anna sucumbiu à fraqueza? As cenas íntimas entre ambos foram simplesmente lindas. Arrepiei-me, chorei e sorri e...nem sei. Só sei que Tracey Graves fez as coisas tão bem que só tenho de elogiá-la.

Aquele final fez-me chorar de felicidade e podem ter a certeza de que entrei mais feliz no novo ano. Amei e quero mais! Recomendo :)
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Fotografia

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